"Superman", novo filme da DC, diverte enquanto questiona o papel do personagem na sociedade
Dirigido por James Gunn, longa marca o início do novo universo cinematográfico da editora
![]() |
| Divulgação: Warner Bros. Discovery |
Em 1938, após a Grande Depressão nos Estados Unidos, dois jovens judeus e filhos de imigrantes tiveram uma ideia de criarem uma história sobre um alienígena que, ao chegar no planeta Terra, ganha superpoderes e decide dedicar sua vida a ajudar os necessitados e defender os oprimidos. Esses foram Joe Shuster e Jerry Siegel quando lançaram o Superman primeira edição da Action Comics. O personagem foi inventado como uma maneira de Shuster e Siegel conseguirem incrementar a renda de suas famílias, e também como uma forma de extravasar a raiva e a frustração com as injustiças que não só aconteciam no mundo, mas em suas vidas. Essa criação, feita por dois jovens desiludidos, é considerada o pioneiro dos heróis de histórias em quadrinhos e um ícone da cultura pop.
Com algumas produções entre os anos 40 e 50, como animações e filmes live-action, com os atores Kirk Allen e George Reeves vestindo o manto, Superman ganhou sua primeira grande produção em 1978, como “Superman: o filme”, dirigido por Richard Donner e com Christopher Reeve no papel do protagonista. O filme, lançado durante a Guerra Fria, refletiu em um herói símbolo do sonho americano, ao mesmo tempo em que inspirava bondade e esperança em sua volta. Reeve, considerados por muitos a versão definitiva do personagem, chegou a reprisar o papel em mais três sequências, que não chegaram a fazer sucesso como o primeiro. Durante décadas, o herói ficou sem uma versão para os cinemas, protagonizando alguns programas para a televisão como “Lois e Clark: as aventuras do Superman” e “Smallville”, com Dean Cain e Tom Wellington no manto, respectivamente. A primeira tentativa de trazer o personagem de volta às telonas foi em 2006, com “Superman: O retorno”, dirigido por Brian Singer e estrelado por Brandon Routh. Essa era uma versão pós 11 de Setembro que escolhia emular o estilo da versão de 1978 com atualizações para dilemas modernos. O longa não fez muito barulho na época e não teve sucesso comercial.
Em 2013, porém, o diretor Zack Snyder apareceu para dar uma repaginada no visual do personagem e com Henry Cavill como o protagonista, lançou “Homem de aço”. O filme mostra uma versão realista é melancólica, com o personagem passando por dilemas existenciais. Depois do lançamento desse longa, a DC, editora do herói, tentou emplacar seu próprio universo cinematográfico nos cinemas, na qual o personagem apareceu em “Batman vs Superman: A origem da justiça”, de 2016, e em “Liga da Justiça”, de 2017. Entretanto, depois de algumas produções, esse universo compartilhado demostrou ser um fracasso comercial e financeiro, o que incentivou David Zaslav, CEO da Warner Bros. Discovery, a criar o DC Studios e chamar o diretor James Gunn (da trilogia “Guardiões da Galáxia”) e o produtor Peter Safran para o comando, fazendo com que o universo compartilhado da DC sofresse uma reformulação.
![]() |
| Christopher Reeve em "Superman: O filme" (1978) |
James Gunn, além de produtor, foi diretor e roteirista do primeiro grande projeto do DCU, o seu novo universo compartilhado: uma nova versão do Superman! Com David Corenswet no papel, o novo filme do personagem não conta a sua história de origem, ele já mostra um universo estabelecido, na qual o herói precisa equilibrar sua herança kriptoniana com seu alter-ego humano Clark Kent, enquanto se vê em um fogo cruzado diante de um conflito geopolítico.
A decisão de não contar a origem do personagem foi tomada pois segundo o diretor, a origem do Superman já foi contada várias vezes e não tinha necessidade de fazer isso de novo. Em vez disso, ele nos apresenta o herói em seu terceiro ano de carreira e passando pelas consequências de ter interferido em um conflito político. Essa decisão não é algo incomum, em “The Batman”, de 2022, o protagonista tem dois anos de carreira, em “Homem aranha: de volta ao lar” de 2017, também não faz questão de recontar o motivo que fez o personagem querer salvar o mundo, mas sinto que em “Superman” essa foi uma decisão que inicialmente, parece sabotar o próprio filme. O longa já começa frenético, um dos conflitos principais do longa foram causados fora da câmera, o que não só criou diálogos expositivos como também te dá a sensação de que faltou 20 minutos de contexto, como se eu tivesse entrado em um episódio aleatório de uma série. O filme apresenta diversos personagens a todo momento, e algum deles, como o Metamorfo, parecem jogados puramente por conveniência. Clark e Lois possuem três cenas até ele se declarar pra ela. São momentos que não são desenvolvidos justamente pela suposição de que o público já conhece os personagens o suficiente pra isso, ou por sentir que tinha assuntos mais importantes para trabalhar, mas isso só faz o primeiro ato parecer atrapalhado e prejudica o ritmo do segundo ato. Felizmente, o longa se recupera a tempo do clímax.
O longa apresenta uma quantidade significante de personagens. A Gangue da Justiça, formada pelo Lanterna Verde, pela Mulher-Gavião e pelo Senhor Incrível servem para mostrar que esse é mundo com heróis estabelecidos além do Superman, então a participação dos dois primeiros foi pontual, já o Senhor Incrível acabou tendo uma importância maior para trama, o que foi uma grata surpresa. Metamorfo, por outro lado, foi um personagem que eu senti que precisava de uma contextualização maior. O núcleo do Planeta Diário, local de trabalho do Clark Kent e da Lois Lane, era extremamente carismático, uma pena que acaba sendo ofuscado pela urgência de outras situações na história. O personagem desse núcleo de maior destaque, além da Lois, é o Jimmy Olsen, amigo de Clark e fotógrafo do jornal, e por mais que ele tivesse importância na trama, as piadas em torno dele ser conquistador de mulheres ficava cansativa, principalmente em torno da personagem Eve Teschmacher, que inicialmente parecia só servir para ser alívio cômico, mas demostrou ser uma peça fundamental para a trama. Meu coadjuvante favorito provavelmente foi o Krypto, o supercão, que foi um ótimo alívio cômico.
“Superman” começa desajeitado com a ânsia de abordar vários assuntos, mas se encontra com o carisma e bondade do protagonista. Com ótimas cenas de ação e com personagens cativantes, esse é um filme divertido que mostra que o personagem ainda pode representar a esperança nos dias atuais. Um ótimo começo para o DCU e que fará você acreditar que um homem pode voar.
Como citado antes, todo filme do herói traz um dilema para ele de acordo com o período do lançamento. Nesse, ele questiona qual é o seu papel no mundo atual. Clark kent, seu alter-ego, quer salvar as pessoas sem ter que lidar com qualquer tipo de burocracia governamental. Ele se importa com a humanidade e acredita no melhor dela. Assistindo a isso, me lembrei do filme “Starman”, de 1984, que fala sobre um alienígena que cai no planeta Terra e tenta voltar pra casa. O protagonista, em uma conversa, expõe o que ele mais gosta dos seres humanos: “ Vocês mostram o que têm de melhor quando as coisas estão difíceis.”. Essa frase, com o contexto dos dois seres de seres extraterrestres, exemplifica o maior triunfo de “Superman”. O que faz o personagem ser tão especial é o fato dele acreditar no melhor das pessoas, ele dá esperança para aqueles que não tem nada e extrai o melhor dos outros. Ele inspirou o Lanterna Verde e a Mulher-Gavião a fazerem a coisa certa quando era muito mais fácil ignorar o problema. Ele inspirou o Metamorfo a fazer a coisa certa mesmo que isso custasse aquilo que ele mais amava. Ele inspirou uma nação oprimida a lutar pelos seus direitos. Isso faz o herói ser tão apaixonante e único, ele mostra que qualquer um pode fazer a coisa certa.
Outra trama que faz parte da sua trajetória é a busca de entender sua humanidade. O protagonista descobre, através de uma artimanha do vilão Lex Luthor, que tudo que ele acreditava sobre sua herança Kryptoniana era mentira, o que o faz ter uma crise existencial. Ao longo do filme, ele entende que o que o define são suas atitudes, ele escolhe a humanidade pois entende que, assim como os seres humanos, ele é falho, e isso não faz nem a humanidade e nem ele mais fracos. Confesso que eu não gosto muito da mudança da origem de sua família biológica, justamente por eu ser tão familiarizada com as versões anteriores, me deixou com um gosto amargo no final do filme, mas é uma mudança que faz sentido para a narrativa.
![]() |
| David Corenswet em "Superman" (2025) |
O longa apresenta uma quantidade significante de personagens. A Gangue da Justiça, formada pelo Lanterna Verde, pela Mulher-Gavião e pelo Senhor Incrível servem para mostrar que esse é mundo com heróis estabelecidos além do Superman, então a participação dos dois primeiros foi pontual, já o Senhor Incrível acabou tendo uma importância maior para trama, o que foi uma grata surpresa. Metamorfo, por outro lado, foi um personagem que eu senti que precisava de uma contextualização maior. O núcleo do Planeta Diário, local de trabalho do Clark Kent e da Lois Lane, era extremamente carismático, uma pena que acaba sendo ofuscado pela urgência de outras situações na história. O personagem desse núcleo de maior destaque, além da Lois, é o Jimmy Olsen, amigo de Clark e fotógrafo do jornal, e por mais que ele tivesse importância na trama, as piadas em torno dele ser conquistador de mulheres ficava cansativa, principalmente em torno da personagem Eve Teschmacher, que inicialmente parecia só servir para ser alívio cômico, mas demostrou ser uma peça fundamental para a trama. Meu coadjuvante favorito provavelmente foi o Krypto, o supercão, que foi um ótimo alívio cômico.
O trio principal, Superman, Lois Lane e Lex Luthor, está incrível. O Lex Luthor de Nicholas Hoult é a versão mais sádica e carismática do personagem. A Lois Lane de Rachel Brosnahan é cativante e foge do estereótipo da donzela em perigo que muitas vezes é colocada, aqui ela é inteligente, astuta e necessária para desmascarar o antagonista. O Superman de David Corenswet é carismático e consegue equilibrar muito bem a personalidade desajeitada de Clark Kent com o altruísmo do herói, além de ter uma ótima química com Brosnahan e uma boa dinâmica com Hoult. Corenswet é provavelmente o ator que chegou mais perto do trabalho que o Christopher Reeve fez em 1978, foram as duas únicas versões do herói que me deixaram com um sorriso de orelha a orelha.
![]() |
| David Corenswet e Rachel Brosnahan em "Superman" (2025) |
“Superman” começa desajeitado com a ânsia de abordar vários assuntos, mas se encontra com o carisma e bondade do protagonista. Com ótimas cenas de ação e com personagens cativantes, esse é um filme divertido que mostra que o personagem ainda pode representar a esperança nos dias atuais. Um ótimo começo para o DCU e que fará você acreditar que um homem pode voar.
Nota: 4/5




Comentários
Postar um comentário