"Barbie", novo filme de Greta Gerwig, satiriza a relação da boneca com o mundo real
Longa-metragem, baseado na famosa boneca da Mattel, faz uma homenagem ao brinquedo, ao mesmo tempo que questiona seu impacto no mundo
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| Divulgação: Warner Bros. |
Um dos brinquedos de maior sucesso no mundo, a Barbie mudou o mercado de bonecas para o público feminino. Antes de sua chegada, as meninas só conseguiam brincar com boneca bebê, pois servia de incentivo para as meninas se imaginarem como mães. Com a Barbie, as garotas puderam brincar com a moda e foram apresentadas a um mundo imerso e sem limites, na qual você pode ser o que quiser- como diz o slogan da marca. Claro que com esse sucesso e impacto, Hollywood estava doida para lucrar com essa personagem, mas adaptá-la para as telonas demonstrou ser uma tarefa complicada.
Após o sucesso do filme "Uma aventura Lego", em 2014, a Sony Pictures demonstrou ainda mais interesse em adaptar Barbie e contratou a roteirista vencedora do Oscar Diablo Cody. Porém, o projeto nunca saiu do papel, e Cody saiu do projeto em 2018. Em uma entrevista a revista GQ, a roteirista comentou que seu projeto não deu certo pois na época era difícil pegar uma boneca branca e magra e transformá-la em heroína. Na época, queriam fazer algo fora do convencional, com a atriz e comediante Amy Schumer interpretando a protagonista, e ir contra a ideia que a Barbie pregava. A Cody comentou que na teoria era uma ideia incrível, mas que era difícil colocar em pratica, e após desavenças com o estúdio, decidiu largar o roteiro.
Em 2019, o projeto saiu das mãos da Sony e foi parar na Warner Bros., porém o longa só começou a ir para frente quando a Margot Robbie conquistou os direitos por meio da Mattel , virou a protagonista e produtora, e chamou a diretora Greta Gerwig, de "Lady Bird" e "Adoráveis Mulheres", para comandar o projeto. Greta roteirizou o filme ao lado de seu marido, Noah Baubach, e entendeu o impacto da boneca para a sociedade e o quão complexo e contraditório seu material é.
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| Margot Robbie como a protagonista |
Na série documental "Brinquedos que marcam época", disponível na Netflix, apresenta a discussão sobre como a Barbie mostrou às meninas que elas podiam ser o que elas quisessem, porém essa não era a proposta de sua criadora, Ruth Handler. As carreiras da boneca só surgiam por causa do Ken, pois ele ganhava varias profissões, e a Barbie também ganhava essas profissões como um "assessório" para acompanhar seu amado. Segundo a própria Ruth, ela nunca pensou em usar a boneca para mudar o mundo, ela queria mostrar o mundo como ele era, afinal, naquela época, não existia mulheres médicas. Sinto que ter visto esse documentário antes do filme ampliou a minha experiência com o longa, pois ele explica o porquê da abordagem utilizada pela Greta no projeto.
A obra mostra Barbie passando por uma crise existencial e questionando o seu lugar na Barbieland, e com a ajuda do Ken, decide partir em uma jornada no mundo humano em busca da verdadeira felicidade. A grande jogada da Greta foi brincar com as diferenças da Barbieland com o mundo real. A Barbie vive num universo onde as suas diferentes versões fazem tudo no lugar: ela é a presidente, elas fazem parte do Congresso, ela é escritora premiada, ela é jornalista premiada; enquanto o Ken só tem a função de ser seu namorado. Na cabeça da protagonista, ela fez o mundo dos humanos mais feminista e ajudou as mulheres a terem maior papel na sociedade, porém quando ela chega no mundo real, vê que os homens ainda continuam ocupando os principais cargos na sociedade, e que as mulheres precisam enfrentar diversas batalhas em seu cotidiano.
Esse choque de mundos é uma das grandes temáticas do filme. A boneca fica chocada ao ver que são os homens que trabalham no canteiro de obra, que as mulheres muitas vezes se revoltam contra elas mesmas e que a Mattel, empresa dona da boneca, é toda comandada por homens. O longa explora o que é ser uma mulher na contemporaneidade, suas lutas diárias, o impacto do patriarcado na sociedade e as imperfeições do ser humano. E o melhor: a obra faz isso sem usar a ideia do "anti-Barbie", que era o que a Sony Pictures tentou fazer. A Barbie vê que, mesmo não sendo a responsável pela emancipação feminina, ela serviu para inspirar milhares de jovens no mundo, às incentivando a serem o que elas quisessem, mesmo com os obstáculos do mundo, além do longa fazer uma linda homenagem a boneca e a criadora Ruth. Tudo bem que em algumas partes o discurso feminista é jogado de qualquer maneira em uma trama às vezes apressada, porém a Greta consegue discutir questões relevantes do mundo feminino de um maneira criativa e divertida.
Outro destaque da obra foi o Ken, interpretado perfeitamente pelo Ryan Gosling. Se a Barbie ficou chocada com o mundo real, o boneco ficou encantado ao descobrir que o mundo era governado pelos homens. O grande dilema do Ken é o fato dele ter sido feito para ser o namorado da Barbie, e que se ele não faz isso, ele não tem um propósito no mundo. No geral, ele serve como alívio cômico, mas é bem desenvolvido e muito bem interpretado pelo Ryan, que rouba a cena sempre que aparece- com destaque para a cena musical em que ele canta "I´m just Ken".
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| Kingsley Ben-Adir, Ryan Goslin e Ncuti Gatwa, cada um interpretando diferentes versões do Ken |
Um outro núcleo importante, mas não tão bem desenvolvido, é o das humanas mãe e filha, Gloria e Sasha, interpretadas por America Ferrera e Ariana Greenblatt, respectivamente. Elas interpretam o clichê da filha pré-adolescente que se afasta da mãe, que por sua vez está frustrada com a vida. Eu queria que tivessem trabalhado melhor com as frustrações da Gloria e que tivessem mostrado seu cotidiano, sinto que isso daria mais impacto ao seu monólogo. Todo o elenco coadjuvante, seja das outras Barbies e Kens, seja de outros personagem do longa, são ótimos e muito carismáticos, com destaque para a Kate Mckinnon, que interpreta a Barbie estranha, e para o Michael Cera, que interpreta o Allan, amigo do Ken.
Os aspectos técnicos também estão incríveis. Todo o direção de arte da Barbieland, parecendo ser um cenário falso de papelão pois seriam de brinquedo, ficou muito bonito e criativo. A trilha sonora também ficou legal, mas infelizmente tiveram várias músicas esquecíveis, eles até colocam uma versão adaptada de "Barbie Girl", da Aqua (óbvio que a Mattel não ia deixar usarem a versão original), porém os destaques foram para "I´m just Ken", com o Ryan, e "What was I made for?", da BIllie Eilish, que foi crucial em um dos momentos mais emocionantes da obra. Eu também preciso comentar sobre como a comédia aqui é muito bem trabalhada, com piadas envolvendo à cultura pop e ao universo da boneca (a última cena do filme é genial).
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| Margot Robbie, Alessandra Shipp, Michael Cera, America Ferrera e Ariana Greenblatt, respectivamente |
No fim, a diretora e roteirista Greta Gerwig demostrou ter sido a escolha perfeita para trabalhar no projeto. Com "Barbie", ela trabalhou com o impacto da boneca no mundo e fez uma celebração às mulheres, tudo isso sendo uma sátira divertida e bem estruturada. Como uma personagem do filme disse: "Humanos têm apenas um fim. As ideias vivem para sempre.".





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