"Jogos Vorazes: A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes" agrega bastante a franquia, porém não possui a mesma força de seus antecessores

 A distopia retorna aos cinemas após oito anos de sua conclusão

Divulgação: Lionsgate


            Lançado em 2008, o primeiro livro da trilogia "Jogos Vorazes" marcou o mercado literário e ajudou a marcar uma nova era na indústria: as distopias adolescentes. A autora, Suzanne Collins, em uma entrevista para o editor David Levithan, comentou que teve a ideia de escrever a saga após zapear canais na televisão de noite e se deparar com reality shows e imagens reais da Guerra do Iraque. Outra grande inspiração para a historia foi o mito de Teseu, que fala sobre um jovem príncipe que de Atenas que participou de uma loteria que exigia que sete moças e sete rapazes fossem levados a Creta e jogados no labirinto, par serem destruídos pelo Minotauro. A autora disse que que, quando era criança, era fascinada em historias de guerra, mas que infelizmente não havia muitas que focassem num publico jovem, o que também demonstrou ser um grande motivador para ela. 
             A trilogia foi um sucesso de crítica e público, o que logo gerou interesse em Hollywood. A Lionsgate adquiriu os direitos da obra e lançou o primeiro filme da franquia em 2012, com Jennifer Lawrence como a protagonista e Gary Ross como o diretor. Para os outros três longas, lançados em 2013, 2014 e 2015, chamaram o diretor Francis Lawrence para ficar encarregado pela franquia. Os filmes também fizeram muito sucesso e foi considerada uma das melhores adaptações literárias da época. O sucesso da franquia pareceu ser o suficiente para a autora, que durante muito tempo deixou a historia de lado... até agora!
             Publicado em 2020, "A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes" se passa 70 anos antes da historia original e mostra Coriolanus Snow antes de ser o presidente tirano de Panem. Aqui, ele é um jovem de 18 anos que passa por dificuldades financeiras e ganha a oportunidade de ser mentor dos Jogos Vorazes e instruir a jovem Lucy Gray, do Distrito 12. Após seu lançamento, logo foi anunciado sua adaptação para o cinema, com o retorno de Francis Lawrence na direção, o que fez muitos criarem expectativas. Confesso que eu li os livros originais anos depois de ter visto os filmes, e segui a mesma lógica com esse, pois e fui ver o longa sem ter muita noção da trama.

Rachel Zegler como Lucy Gray e Tom Blyth como Coriolanus Snow

              
              Eu imagino que muitas pessoas estavam com medo de como iam trabalhar com o Snow, se iam romantizar sua figura e tentar justificar suas crueldades, e felizmente a historia não seguiu por esse caminho. O filme serve mais como um estudo de personagem para entender suas atitudes e humanizá-lo aos nossos olhos. Snow é fruto da maldade de Panem, alguém com mais semelhanças com os tributos do que imagina, pois ambos precisam fazer sacrifícios e escolhas difíceis para sobreviverem.
            Essa é a questão que o longa busca trabalhar, em como Snow lida com toda a crueldade que precisa praticar. A outra protagonista, Lucy Gray, precisa lutar pela sua vida nos Jogos e precisa fazer coisas horríveis, precisando carregar o peso da culpa quando tudo acaba. Já o Snow, em sua grande maioria, não sente remorso pelas suas atitudes, ele vê como um sacrifício necessário para lhe beneficiar ou ajudar sua família. Essa frieza em lidar com suas decisões ajuda a entender o personagem como presidente de Panem, na trama original. Suas atitudes eram cruéis, mas ele não via por esse lado, e ver isso sendo desenvolvido nesse filme o torna ainda mais psicopata que antes.

Rachel Zegler como Lucy Gray

             Como se toda essa construção de personagem já não fosse o suficiente para justificar a existência desse quinto filme, a trama aproveita para expandir esse universo distópico, mostrando como os jogos deixaram de ser uma mera punição e passaram a ser um espetáculo, a ideia de um patrocinador para ajudar os tributos, o passado de outra personagem da saga, Tigris, interpretada pela atriz Hunter Schafer, e que fora importante no filme "Jogos Vorazes: A Esperança- parte 2", e a origem da música "The hanging tree", que futuramente viraria símbolo da rebelião.
              Eles mostram que essa música foi criada pela personagem Lucy, a tributo do Distrito 12, e sua importância para a historia vai além disso. Ela serve para criar um paralelo com o Snow, mostrando que o jeito com que lidamos com as consequências de nossos atos dizem mais sobre o nosso caráter do que qualquer outra coisa. Ela também utiliza a música como forma de defesa e comunicação, sendo interpretada pela atriz Rachel Zegler, que mesmo eu achando uma atriz fraca, aqui ela conseguiu transmitir carisma suficiente para parecer cativante. O fato da protagonista ser do Distrito 12 também demonstra ser importante para a trama, pois mostra a ligação do Snow com o lugar. A autora comentou em entrevista que o Distrito 12 é o destaque da franquia pois ele é sempre ignorado pela Capital, o que faz com que os moradores de lá tenham mais facilidade de quebrar as regras do lugar e, de alguma maneira, ficam mais próximos da Capital, sendo mais possível de ser derrotá-la. Sinto que esse filme conseguiu captar isso.
              Porém, o longa possui seus defeitos. Ele é dividido em três partes, e na última parte eu senti que pareceu bem anticlimático e arrastado, pois dava a sensação de que tudo de relevante já tinha acontecido, mesmo não sendo verdade. Foi um problema narrativo que podia ter sido evitado. Outro problema do filme é o personagem Serjanus Plinth, interpretado pelo Josh Andrés Rivera, que mesmo sendo essencial para a trama, teve um desenvolvimento raso. O final do filme, em que o Snow conversa com o Casca Highbottom, criador dos Jogos Vorazes interpretado pelo Peter Dinklage, também mostra ser uma cena desnecessária e não possui o impacto que deveria. 
              Por outro lado, o longo acerta em sua direção de arte, que consegue te transportar no tempo, em seus coadjuvantes, com destaque para Dra. Volumnis Gaul, idealizadora dos Jogos interpretada pela Viola Davis, e em sua trilha sonora, com destaque para "Can't catch me now", de Olivia Rodrigo, música que consegue captar a essência da trama.



                 "Jogos Vorazes: A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes" pode não ter o mesmo impacto de seus antecessores, mas mostra o por quê da franquia ter envelhecido melhor do que as outras distopias adolescentes, graças aos seus personagens cativantes, lado político bem desenvolvido e consegue expandir seu universo sem saturá-lo.

   













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