'Uma batalha após a outra' explora uma complexa relação entre pai e filha em meio a um caótico contexto político

 Estrelado por Leonardo DiCaprio, o longa se revela uma grande sátira política do mundo contemporâneo

Divulgação: Warner Bros. Discovery

  ‘Boogie Nights’, ‘Magnólia’, ‘Sangre Negrão’, ‘Trama Fantasma’, ‘Licorice Pizza’. O que todos esses filmes tem em comum, além do seu diretor Paul Thomas Anderson, é como eles exploram a humanidade através de diversas facetas. Desejo, ganância, amadurecimento, todas são histórias pé no chão, mas sem deixarem de serem grandiosas. Esses longas também possuem baixo orçamento e pouco bilheteria, sua maior arrecadação foi ‘Sangue Negro’, por U$ 76,2 milhões. Esse ano, Paul conseguiu o maior orçamento de sua carreira para dirigir o que muitos consideram uma de suas maiores apostas, mas nem essa grandiosidade consegue tirar a simplicidade encontrada em suas obras anteriores: a humanidade.

  ‘Uma batalha após a outra’ gira em torno de Bob Ferguson, interpretado por Leonardo DiCaprio, um ex-revolucionário que que precisa ir atrás de ajuda para resgatar sua filha de uma figura que já assombrou o seu passado. O filme não tenta esconder para o que veio. Logo nas primeiras cenas vemos o passado do protagonista ao lado de Perfídia Bevelly Hills, interpreta por Teyana Taylor. Enquanto eles atacavam diversos locais nos Estados Unidos para passarem sua mensagem, vemos o quão opostos são: Bob é um cara aparentemente na dele, que só quer fazer o seu trabalha e o que ele acredita ser o certo. Perfídia tem uma energia magnética, em todo lugar que passa, ela deixa a sua marca, faz o que ela quer, muitas vezes sem pensar nas consequências, não da satisfação para ninguém e é imprevisível. Suas ações, incluindo o seu relacionamento com o Coronel Steven J. Lockjaw, interpretado por Sean Penn, são a força motriz do longa e assombram a narrativa.

Teyana Taylor em 'Uma batalha após a outra' (2025)

  Algo interessante do filme é que ele retrata tanto a direita, tanto a esquerda, de maneira caricata. Sim, nós torcemos para os revolucionários, eles são os mocinhos da história, os supremacistas brancos continuam desprezíveis, mas o diretor, que também é o roteirista, explora, por meio dos personagens de DiCaprio e Penn, os estereótipos de ambos os lados políticos. Bob é um maconheiro, desatento e sem pudor, deixando muitas vezes sua filha como a responsável da casa por estar desorientado. Sargento Lockjaw é aquele típico racista que finge desprezar o que o atrai, então é desesperado por aprovação externa para fingir ser moralmente superior, mesmo sabendo que não se encaixa naquilo que os supremacistas consideram “puro”. A caricatura de cada um poderia parecer forçada, mas funciona na narrativa, pois, assim, nós conseguimos simpatizar com o personagem de DiCaprio, já que além de ser um ótimo alívio cômico, ele é autoconsciente e tenta fazer de tudo para ser um bom pai, e conseguimos achar o personagem de Penn patético, mas sem deixar de achá-lo amedrontador. 

  Mesmo com o forte contexto político do filme, com uma temática mais do que atual sobre imigração e polarização política, considero que o maior feito do filme é justamente trabalhar no que o diretor sempre gosta de mostrar em suas obras: humanidade. Vemos como os personagens são falhos. Perfídia traiu seus companheiros e foi uma mãe desleixada, mas isso não significa que ela não amava sua filha e que não se arrependia de seus erros. Bob falhou enquanto um revolucionário e provavelmente nem faria falta durante a jornada do resgate de sua filha, mas o seu amor por Willa Ferguson, interpretada por Chase Infiniti, movem a trama, e o fato da garota se mostrar autossuficiente durante a obra demonstra que Bob foi um ótimo pai. No fim, o longa mostra como que os erros dos pais não definem o futuro de seus filhos. As escolhas de Perfídia e Bob geraram uma versão melhor deles mesmo. A geração anterior pode ter sido falha, mas Willa nos mostra que isso não define o futuro. 

  
Leonardo DiCaprio e Benicio Del Toro em 'Uma batalha após a outra' (2025)

  DiCaprio e Penn estão ótimos no filme, mas os destaque foram Benicio Del Toro e Regina Hall, mesmo com pouco tempo de tela, os dois tiveram atuações antagônicas que foram marcantes na tela. Benício, interpretando o Sensei da escola de artes marciais de Willa e que ajuda Bob em sua jornada, é tranquilo e bem humorado, nem nos momentos mais tensos em que o personagem estava presente ele parecia abalado, o que causou um contraste ao lado do caótico protagonista. Já Hall, interpretando uma ex-revolucionária e antiga amiga de Bob, estava sempre tensa, ela já estava cansada e parecia carregar o mundo nas costas, tentava fazer a coisa certa mesmo parecendo que não teria salvação, os seus olhares eram muito marcantes. Chase Infiniti, que interpreta Willa, filha de Bob, é a novata do grupo, esse foi o seu primeiro longa, e embora em alguns momentos a sua falta de experiência fosse perceptível, ela conseguiu segurar as pontas ao lado dos veteranos.

  A direção de Paul Thomas Anderson consegue sempre deixar o filme em um ritmo frenético, construindo tensão quando necessário. A cena da perseguição da estrada é alucinante, uma das melhores do longa. A trilha sonora também é um dos destaques da obra.

 
Chase Infiniti em 'Uma batalha após a outra'
  ‘Uma batalha após a outra’ consegue ser mais atual do que nunca. Em um mundo tão polarizado e sem esperança, marcado pelos erros das gerações anteriores, o filme mostra que é possível sim encontrar a luz no fim no túnel naquilo que aquela mesma geração quebrada construiu, o seu legado.



Nota: 4,5/5

 




  








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