‘Frankenstein’, um dos maiores clássicos da literatura, ganha uma nova versão sob o olhar de Guillermo Del Toro

 A nova adaptação do diretor vencedor do Oscar explora a busca pela humanidade

Divulgação: Netflix

  Um dos maiores clássicos da literatura, ‘Frankenstein’ foi escrito por Mary Shelley, publicado em 1818 e continua sendo uma história atemporal. Victor Frankenstein, um cientista ambicioso, decide trazer uma criatura de volta a vida, mas esse seu experimento o leva a ruína. A trama mostra um "Prometeu moderno" que tenta mexer com o divino e desenvolve como as pessoas julgam pelas aparências. O cinema é fascinado por esse livro desde seu primórdio, a primeira adaptação ocorreu em 1910. A mais famosa ocorreu em 1931, e seu sucesso gerou a sequência ‘A Noiva de Frankenstein’, uma história completamente inédita. Depois de décadas com Hollywood lançando novas releituras essa obra, não foi  surpreendente ver Guillermo Del Toro lançando sua versão.
 
  O diretor mexicano é conhecido por contar histórias de criaturas incompreendidas pela sociedade. Desde ‘Hellboy’, filme que o deixou famoso, ‘O Labirinto do Fauno’, que lhe rendeu sua primeira indicação ao Oscar, por Roteiro Original, ‘A Forma da Água’, que lhe rendeu o Oscar de Melhor Filme e Melhor Diretor, a animação ‘Pinóquio’,  que lhe rendeu o Oscar de Melhor Filme Animado. Esse último, inclusive, teve uma cena que eu recordei durante a sessão de ‘Frankenstein’, quando o Pinóquio olha para uma estátua de madeira de Jesus pregado no crucifixo e pergunta o porquê das pessoas admirarem a estátua de madeira, mas não gostarem dele, que também é feito desse material. Em ‘Frankenstein’, a cena em que o Victor colocar o monstro em uma pose exatamente igual a de Jesus em uma estrutura que se assemelhava com um crucifixo para poder receber os raios que trariam o ser à vida mostrou uma das temáticas que Del Toro estava buscando trabalhar: as consequências de mexer com aquilo que é considerado divino.



Oscar Isaac em ‘Frankenstein’

  O cientista, interpretado por Oscar Isaac, teve uma infância complicada e isso é uma das causas dele querer realizar seu experimento. Ele via isso como uma forma de ser melhor que o seu pai, a quem guardava muita mágoa. Enquanto muitos tinha interesse pela vida, ele se interessava pela morte. O que ele não percebeu é que, com o nascimento da criatura, interpretado por Jacob Elordi, ele se tornara igual a quem ele mais temia. E mesmo com a noiva de seu irmão, Elizabeth, interpretada por Mia Goth, expressando que só um monstro tentaria brincar de Deus, ele ainda não percebia a gravidade da situação. Ele queria poder controlar a morte, sem se responsabilizar na dor que causara a todo momento.

   Por mais interessante que sua trajetória fosse, seus melhores momentos eram os seus debates éticos com Elizabeth, que achava que ter ideias e valores não significam nada sem uma ação concreta. Muitas vezes essa trama de Victor ficava repetitiva, pois sempre surgia um personagem para jogar na cara dele que ele era o verdadeiro monstro, a palavra perdia o impacto que deveria ter quando dita ao cientista. A atuação de Oscar Isaac também não ajudava, pois os seus olhares beiravam ao caricato, por mais que ele tenha conseguido ser manter estável em boa parte do longa.

   O destaque, e a alma do filme, veio da criatura de Jacob Elordi. É irônico pensar que ele não foi a primeira opção para o personagem, e sim o ator Andrew Garfield, pois os 1,96 m de altura de Elordi foram muito necessários para compor sua atuação. Sua aparência considerada grotesca tinha contaste com sua performance, que ia de inocente para intimidante ao longo do seu desenvolvimento. Ele parecia uma criança curiosa para conhecer o mundo no início, o que me tirou um sorriso do rosto em vários momentos, mas quanto mais ele descobria sobre a crueldade humana, incluindo a de Victor, mais ele se tornava mais deprimido e desesperançoso. A tragédia não parte da monstruosidade criada pelo cientista, mas como suas escolhas fizeram a criatura perder sua inocência. No fim, ambos estavam em busca de uma humanidade.

Jacob Elordi em 'Frankenstein'

  Chega a ser irônico que Del Toro tenha falando que não considera sua adaptação um terror no sentido tradicional, mas sim uma história profundamente emocional e trágica. Primeiro, porque a obra de Mary Shelley sempre se tratou de um terror que com uma complexidade emocional, então ele não está sendo inovador. Segundo, pois não existe terror tradicional maior do que explorar o que há de mais assustador na humanidade, não precisa ter um slasher assassino ou ter assombrações sobrenaturais para isso.

  Alguns detalhes que chamaram atenção na direção de arte foi a preocupação de transportar o estilo gótica para essa adaptação, a cena em que trazem o monstro à vida é bela. A trilha sonora ajuda a montar essa estética, reforçando o suspense e a melancolia quando necessário. O design da criatura também chama a atenção por parecer retalhos de uma anatomia do corpo humano, mas o  cabelo destoava e tirava o que tinha de interessante no visual, mesmo esse elemento sendo o único traço mais humano do personagem.

Mia Goth em ‘Frankenstein’

  Aos olhos de Del Toro, ‘Frankenstein’ explora a busca pelo que nos faz humanos, muitas vezes através de tentar entender e controlar a vida e a morte e pela busca de um sentido na existência. Victor e a criatura eram muito diferentes, mas ambos lutaram pelo reconhecimento de quem eles eram para os outros.


Nota: 3,5/5



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