"Wicked" se sustenta graças ao carisma de seu elenco

 Baseado no famoso musical da Broadway, o filme diverte enquanto debate questões importantes 

Divulgação: Universal Pictures


      "Somewhere over the rainbow..."

      Essa frase cantada por Judy Garland em "O mágico de Oz", de 1939, é um dos muitos momentos eternizados por esse clássico do cinema. Baseado no livro de L. Frank Baum, de 1900, o filme foi um marco para a indústria cinematográfica, contando a história de Dorothy, uma menina do Kansas que é jogada para a terra mágica de Oz, faz amizades e se mete em confusão enquanto tenta voltar para casa. O longa foi um dos primeiros a utilizar Technicolor, técnica de coloração, brincando com a estética e cores o tempo todo. Um marco no cinema hollywoodiano que inspira gerações até os dias atuais. 
      O seu impacto transparece também na literatura, com o livro "Wicked", escrito por Gregory Maguire e lançado em 1995. Maguire admitiu ser um grande admirador do livro de Baum e do filme de 1939, e se inspirou no cenário de Oz para contar a história da Bruxa Má do Oeste, aqui chamada de Elphaba, e sua origem antes de se tornar vilã, explorando discriminação e a visão de o que é ser bom e ser mal. Em 2003, a obra foi adaptada para um musical na Broadway, que chegou a vencer três Tonys, um Grammy e se tornou um sucesso comercial. O musical tem como foco mostrar a amizade de Elphaba e Glinda (a Bruxa Boa de "O mágico de Oz") e como esse relacionamento é testado por conta de perspectivas diferente sobre a terra mágica de Oz.

Margaret Hamilton como a Bruxa Má do Oeste e Judy Garland como Dorothy em "O mágico de Oz", de 1939

         Claro que com esse sucesso todo, era de se esperar o interesse de Hollywood em adaptar a história. A Universal Pictures anunciou o seu desenvolvimento em 2012. Depois de diversas trocas de diretores e datas de lançamento, em 2021, tudo começou a andar com Jon M. Chu sendo anunciado como diretor e Cynthia Erivo e Ariana Grande sendo anunciadas como Elphaba e Glinda, respectivamente. Confesso que não estava colocando muita fé na adaptação, já que a última grande versão cinematográfica de um musical da Broadway foi "Cats", e acho que todos nós lembramos do desastre que foi. Além disso, algumas notícias e informações da obra me deixaram com o pé atrás, como o fato deles decidirem dividir a história em duas partes, sendo a que foi lançada esse ano a parte um, e isso faria os dois filmes terem uma duração maior que a peça original.  Mas eu me surpreendi positivamente com o filme.
         Primeiro, destaco o lado político da trama. O impacto de "O mágico de Oz", como eu comentei antes, vai além das telas, pois a sua trama aborda duas bruxas que oprimem os cidadãos de Oz, e isso reflete na vida real, a partir da interpretação de cada um com a obra. Quando Margaret Tatcher faleceu, em 2013, a música "Ding Dong! The witch is dead", cantada por Garland em 1939, ficou no topo das paradas britânicas. Após a morte da Rainha Elizabeth II, 2022, teria uma apresentação de "Wicked", em Londres, e os organizadores do musical precisaram pedir para as pessoas separarem a realidade da ficção, já que o número de abertura "No One Mourns the Wicked", tem a frase "Good news, she´s dead". Esse paralelo político da realidade com a narrativa do filme é visto com a discriminação que a Elphaba sofre por conta de sua cor de pele verde, e também pela perseguição que animais falantes sofrem em Oz, já que eles são vistos como os culpados pelos problemas do lugar. O longa trabalha com a ideia clássica de locais em crise que procuram por líderes carismáticos que solucionam todos os problemas de lá, o que muitas vezes vem com a culpabilizar uma parcela da sociedade, que passa a ser perseguida. Pode parecer uma trama batida na ficção, mas não vamos esquecer que, na vida real, essa foi a trajetória de Adolf Hitler, que prometeu salvar uma Alemanha quebrada e culpabilizou os judeus por tudo de ruim que acontecia no país. Então por mais que essa trama possa parecer genérica, ela demonstra ser cada vez mais necessária e atual, e aqui é feita de uma maneira que não fica expositivo para o público. 
           Mesmo com esse lado político da trama, eu me diverti muito com o filme. Ele consegue separar bem os momentos cômicos dos de seriedade. As cenas musicais também são revigorantes. Esses dois pontos são muito bem estruturados graças ao elenco maravilhoso. A Ariana Grande me surpreendeu como Glinda, não que eu não soubesse que ela é uma boa atriz, mas ela foi um ótimo alivio cômico e também está bem nas cenas dramáticas. por mais que sua performance mais comentada seja em "Popular", esbanjando carisma, eu destaco "No One  Mourns the Wicked" já que sua personagem passa por um misto de emoções muito bem transparecidos na tela. Outro número musical que eu adorei foi "Dancing Through Life", com Jonathan Bailey interpretando Fiyero, e mesmo que seu personagem sirva mais para alívio cômico e interesse amoroso, esse esbanjou carisma em todas as cenas em que aparecia.
          O grande destaque do elenco, é claro, foi a Cynthia Erivo. Sua personagem carrega boa parte da carga dramática da trama, já que Elphaba é oprimida pela sua cor de pele verde e busca fazer a diferença na vida das pessoas, ao mesmo tempo que quer ser aceita pelo seu pai e pela sociedade de Oz. Mas o fato dela sofrer com o preconceito não a define por completo, ela também é inteligente, divertida, com bom senso de humor, sonhadora e uma boa amiga, e Erivo consegue equilibrar bem isso. Os seus números musicais também eram maravilhoso, com "Defying Gravity" sendo o seu auge no filme, quando Elphaba finalmente se rebela, e confesso que fiquei arrepiada com a cena.  

Cynthia Erivo como Elphaba e Ariana Grande como Glinda
         
            Porém, existe algumas decisões contraditórias na direção e na fotografia que me irritaram. Desde o lançamento do primeiro trailer, houve algumas críticas em relação ao filme parecer cinza e frio, e a justificativa do diretor Jon M. Chu foi de que estavam tentando fazer algo realista para o público ficar imersivo e achar a o universo de Oz crível. Chega a ser desrespeitoso alguém achar que a audiência não vai comprar a ideia de um universo mágico adaptando uma obra que estiliza um dos filmes mais mágicos do cinema. "O mágico de Oz" não tinha medo de ser fantasioso, esbanjava cor para todos os lados. "Wicked" não tem saturação, o filme prefere utilizar uma iluminação pavorosa que atrapalha diversos números musicais. As cenas na terra das esmeraldas eu nem senti que tenham sido tão afetadas, mas as cenas na Universidade Shiz eram muito feias visualmente. Eu acho que se alguém vai adaptar uma história genérica, com clichês clássicos, fantasiosa e, principalmente, musical, é preciso abraçar a ideia de fazer algo fora da casinha. O mais cômico é que os melhores momentos do longa eram justamente com o carisma mágico e hipnotizante do elenco, que até fizeram eu ignorar o fato de que eu mal conseguia ver a cara dos atores graças a iluminação "natural" deles.

Cynthia Erivo como Elphaba e Ariana Grande como Glinda

 
              Mesmo com uma história repleta de clichês e com problemas técnicos armadores, "Wicked" brilha com um elenco carismático que dão vida a números musicais contagiantes que mostram como a terra mágica de Oz ainda gera discussões sociais importantes e ainda  se mostra atemporal. A segunda parte do musical chega em Novembro de 2025 nos cinemas.

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