Mulher-Maravilha e o descaso da Dc

 A personagem, que faz parte da trindade da editora, já mostrou que pode ser lucrativa, porém não investem nela

Divulgação: DC Comics

            Recentemente, houve uma discussão na rede social X (antigo Twitter) sobre quem são os quatro heróis mais icônicos de todos os tempos. Alguns deles foram unânimes: Batman é o maior herói da DC, Homem-Aranha é o maior herói da Marvel e Superman foi o pioneiro nos quadrinhos. Porém, a última vaga gerou debate entre os internautas, cogitaram Wolverine, Hulk, Capitão América, Homem de Ferro... O pensamento óbvio seria a Mulher-Maravilha, ela foi a pioneira das heroínas nos quadrinhos, é inspiração para a criação de diversas personagens femininas na cultura pop e é utilizada como símbolo do movimento feminista. Para o grande público nerd, no entanto, ela não merece esse posto. Justificam que ela não é icônica o suficiente, que seus vilões não são conhecidos ( como se Ares e Mulher-leopardo não fossem mais famosos que qualquer vilão do Wolverine e do Homem de ferro) e que não possui historias icônicas. Alguns até acham que ela não merece fazer parte da trindade da DC, afirmando que o Lanterna Verde e o Flash merecem essa posição, o que é irônico, visto que o primeiro foi deixado de lado pela editora por anos por causa do fracasso do filme com Ryan Reynolds, e só vai voltar a ter destaque agora com a série "Lanterns" para o DCU e com a série animada "My adventures with Green Lantern", e o segundo, após o fracasso do filme "The Flash", com Ezra Miller, teve jogo descartado, o CO-CEO da DC Studio, James Gunn, afirmou que não tinha planos para o velocista e o diretor do filme de 2023, Andy Muschietti, comentou que o personagem não tem apelo do público.
            Mas a grande pergunta é: por que é tão difícil para o público reconhecer o valor da Mulher-Maravilha?

Mulher-Maravilha  por Nicola Scott

               
                Criada por Willian Moulton Marston, em 1941, a Mulher-Maravilha, ou Diana Prince, abriu caminho para protagonistas do gênero feminino em uma época em que mulheres não protagonizavam suas próprias histórias nos quadrinhos. Diferente de muitas na época, a Mulher-Maravilha surgiu sem ser derivada de um núcleo masculino ou de uma equipe. Ela é a princesa das amazonas, uma guerreira, forte, inteligente, com poderes abençoados pelos Deuses gregos, feita do barro pela sua mãe, rainha Hippolyta, e com um núcleo predominantemente feminino, já que a personagem veio da Ilha de Themyscira, habitada somente por mulheres. Diana também é bondosa, acredita na paz e na justiça. Ela chega no mundo dos homens quebrando os moldes do patriarcado e lutando pela igualdade.
                 O núcleo da amazona também trouxe a primeira heroína negra da DC. Na edição 281 de "The World's Finest Comics" (1973), surgiu Núbia, irmã de Diana (as duas foram feitas por tipos diferentes de barro por Hippolyta) que foi raptada quando bebê por Ares, Deus da Guerra, para viver na Ilha Flutuante, mas com o tempo as irmãs acabaram se conhecendo. Atualmente, ela é a Rainha das Amazonas.
                  Em relação às adaptações, nos anos 70 surgiu a série da personagem estrelada por Lynda Carter, que foi um enorme sucesso na época, sendo uma das primeiras grandes adaptações de quadrinhos para o grande público. Em 2017, a Mulher-Maravilha ganhou seu primeiro filme para os cinemas, com a Gal Gadot no papel, e que arrecadou mais de $800 milhões, sendo a segunda maior bilheteria para um filme de heroína e um dos maiores sucessos da DC. 
                  A personagem já foi embaixadora honorária da ONU, serviu como símbolo na luta feminista, seus quadrinhos constantemente estão entre os mais vendidos, é considerada um dos pilares da editora e muito mais.

Primeira história da personagem, em 1941

                   E por que, mesmo depois de toda essa explicação, vão ter pessoas que vão dizer que ela não é icônica? A resposta está na abordagem que ela recebe nas mídias. Por exemplo, muitas pessoas consideram os Vingadores a maior equipe da Marvel por causa do sucesso dos filmes, como se os X-Men e Quarteto Fantástico não tivessem sido mais icônicos e mais importantes para a editora. Se você não der mídia, as pessoas não dão valor. O Batman só é essa potência atualmente graças as diversas adaptações transmídias que ele recebeu ao longo das décadas.  A DC dá um tratamento tão ofensivo à Mulher-Maravilha que eu decidi separar alguns dos tópicos que mostram esse descaso:

                Relacionamentos amorosos
                
                A maioria dos heróis possuem um interesse romântico. E esse era o papel de Steve Trevor, que apareceu desde as primeiras histórias da Mulher-Maravilha. Ele era um piloto americano da Segunda Guerra mundial que caiu na Ilha das amazonas e que foi salvo por Diana. Ele foi o primeiro homem que ela conheceu e serviu como estopim para a personagem deixar a ilha e ir lutar na guerra ao lado dos homens. Eu admito que gosto do casal quando é bem escrito. Eles são uma inversão de papéis divertida em que Steve representa a donzela em perigo. Ele apoia e acredita na Diana, é gentil e pode ser bem fofo ao lado da amada. O problema é que muitas vezes eles não sabem como escrever a dinâmica do casal, o que faz com que boa parte do público nem ligue para os dois juntos, já que ou fazem o Trevor ser um militar genérico babaca, ou fazem a Diana ser completamente obcecada e dependente dele. Eles são tão difíceis de se escrever que, quando a DC reformulou seu universo nos quadrinhos, na década de 80, o escritor George Perez, que escreveu uma das fases mais icônicas da personagem, decidiu fazer os dois terem uma relação platônica, o que durou por décadas.
                Outro exemplo é nos filmes. Em "Mulher-Maravilha" (2017), Steve, interpretado por Chris Pine, era carismático, teve um papel importante na trama, tinha química com a protagonista e teve uma morte marcante. Ou seja, um arco descente. Porém, a sequência "Mulher-Maravilha 1984" (2020) estragou a dinâmica do casal fazendo a Diana virar uma viúva que não consegue superar um cara que ela conheceu seis décadas atrás. 
                E os outros supostos pares românticos conseguem piorar ainda mais a imagem da heroína. Muitas pessoas acham que ela combina com o Superman ou com o Batman, mas não percebem como isso prejudica a personagem. Quando falam que ela combina com o Superman, argumentam que só eles são capazes de se entender pois são os dois seres mais poderoso da DC, entretanto, isso nunca foi um problema para ele, que ao lado da jornalista Lois Lane, formam um dos casais mais icônicos da cultura pop, isso só serve para a Mulher-Maravilha, já que muitas pessoas não aceitam uma mulher sendo a mais forte no relacionamento. Os fãs do Batman a tratam como um troféu a ser conquistado, já cheguei a ler deles que ela só vai se tornar interessante se casar com o homem morcego e for mãe do Robin... 
             Sem falar que, desde de 2016, a personagem é canonicamente bissexual (ela viveu em uma ilha só de mulheres né), mas só exploram isso em histórias alternativas, nunca na linha do tempo principal. A DC só lembra da sexualidade da Diana no Mês do Orgulho LGBT+ para fazer arte para quadrinho.

                                
Gal Gadot como Diana Prince e Chris Pine como Steve Trevor em "Mulher-Maravilha" (2017)

                Jogo cancelado

                Como alguém com uma mitologia tão interessante não tem um jogo ainda? Bem, isso poderia ter mudado se a Warner Bros. Games não o tivesse cancelado no meio da produção. O jogo foi anunciado em 2021 e estava sendo desenvolvido pelo estúdio Monolith, sendo considerado uma grande aposta da empresa, mas devido aos altos gastos e aos problemas nos bastidores, a Warner decidiu cancelar o jogo e a Monolith foi fechada. 

                          
Imagem do jogo cancelado da heroína

                 Mulher-Maravilha e Lara Croft

                 Por falar em jogo, já imaginou a maior personagem feminina dos jogos encontrando com a maior personagem feminina dos quadrinhos? Crossovers são comuns nesse meio, por exemplo, a DC lançou em Março de 2025 uma história da Liga da Justiça com o Sonic. A escritora Gail Simone disse, na rede social Bluesky, que tentou aprovar um crossover entre a Mulher-Maravilha e a Lara Croft. "Nós apresentamos a ideia, o pessoal da Lara Croft estava totalmente a bordo. A DC foi relutante", ela comentou.
                 
                 Sem série animada

                 Há décadas, tentam tirar esse projeto do papel. Começou em 1968, quando o estúdio Filmation, responsável por "As aventuras de Batman e Robin", considerou produzir uma série animada da personagem, mas sem sucesso. A Mattel, em 1993, tinha feito uma parceria com a editora para produzir "Mulher-Maravilha e as StarRiders", com a premissa de jovens mulheres modernas e guardiãs de joias mágicas que protegeriam a Terra de forças do mal, entretanto, o projeto nunca avançou. Em 1994, Boyd Kirkland, diretor de "Batman: The animated series" e "X-Men: Evolution", tentou levar a ideia de uma série animada da personagem à Fox Kids e ao Kids' WB, mas foi rejeitado. A última notícia que teve foi em 2023, quando o CO-CEO da DC Studios, James Gunn, disse que estava tentando realizar esse projeto, porém, nunca mais comentou sobre o assunto.
               Até filme animado dela sofre dificuldade. O estúdio lançou o primeiro longa animado da Mulher-Maravilha em 2009, e mesmo sendo uma das maiores bilheterias de filmes animados da DC (arrecadou mais de $9 milhões), a sequência foi cancelada devido às vendas abaixo do esperado.

                  
"Mulher-Maravilha" (2009)


                  Lembraram que existe trindade só para fazer filho

                  Mesmo que a DC diga que existe uma trindade, nota-se uma discrepância na quantidade de projetos do Batman e do Superman em comparação com a Mulher-Maravilha. Recentemente, a editora lembrou que a heroína é o seu terceiro pilar, mas os fãs preferiam que não tivessem lembrado. Nos últimos anos, os Super Filhos, formado pelo Robin Damian Wayne e pelo Superboy Jon Kent, filhos do Batman e do Superman, respectivamente, começaram a fazer sucesso e acharam uma boa ideia fazer a amazona ser mãe, com a filha Elizabeth Prince, a Trinity.
                   Tudo em relação à personagem é problemático. Diana e Steve Trevor foram descaracterizados e foram transformados mais uma vez em um casal desinteressante. Steve só serviu para ser doador de esperma, pois morreu e pediu para a heroína criar a filha do barro. Diana virou uma mãe solo que negligência a filha, a ponto da menina passar mais tempo com o Damian e com o Jon do que com qualquer personagem do núcleo da Mulher-Maravilha. Tudo isso foi escrito pelo Tom King, que, com vinte edições, já é considerada uma das piores fases da amazona nos quadrinhos.

Elizabeth Prince, filha da Mulher-Maravilha


                    Paraíso perdido
                    
                    Foi anunciado, em Janeiro de 2023, diversos projetos para o DCU, novo universo compartilhado da DC. Entre eles, a série "Paradise lost", que terá foco nas guerreiras amazonas de Themyscira. A última atualização do programa foi em Fevereiro de 2025, em que James Gunn afirmou que o piloto da será já estava sendo escrito. A questão é que enquanto o filme do Superman será lançado em Julho de 2025 e o filme do Batman já tem diretor e roteirista, não se sabe quando a Mulher-Maravilha fará sua primeira aparição. O único conteúdo da personagem no DCU até agora foi a vilã Circe, na série animada "Comando das criaturas", na qual os fãs criticaram a descaracterização da antagonista.

                Existe uma luz no fim do túnel?

                O único lugar em que os fãs da heroína ainda podem acompanhar conteúdo de qualidade dela é em "Absolute Wonder Woman", história que faz parte de um universo alternativo que reformula a origem dos principais heróis da editora. A trama é ambientada em um mundo na qual as amazonas foram punidas pelos Deuses e a Diana foi criada pela feiticeira Circe no inferno. A versão Absolute da heroína está sendo um sucesso pelo público, com vendas superiores aos quadrinhos do Homem-Aranha e do Wolverine. 
                   
Capa de "Absolute Wonder Woman" #1 (2024)

                Então, depois de analisar todos esses pontos, só resta fazer duas perguntas: por que muitas pessoas acham que o Lanterna Verde e o Flash são mais icônicos que a Mulher-Maravilha, se eles fracassaram nos seus respectivos filmes e ela não? E por que a DC não investe mais na personagem, mesmo depois dela ter mostrado que pode gerar lucro? A resposta para a primeira é até bem simples: uma mulher, mesmo com poderes, precisa trabalhar duas vezes mais para provar o seu valor. O Lanterna Verde e o Flash foram deixados de lado após o fiasco de suas respectivas adaptações, e a Mulher-Maravilha, mesmo com a versão da Gal Gadot sendo um sucesso, teve o mesmo destino. A resposta para a segunda pergunta é mais complexa e prefiro não responder, pois no fundo, acho que todos imaginam o motivo.
             A minha tristeza é pensar que, se a heroína mais icônica de todos tempos é tratada dessa maneira, as outras não possuem nenhuma chance de triunfo. Mas não se preocupe, pois no Dia Internacional da Mulher, a DC vai fazer uma postagem no Instagram dizendo que a Mulher-Maravilha é muito importante para a editora...
                              

Comentários